Do córrego Lava-Pés aos sistemas modernos de tratamento, redes subterrâneas e poços profundos: uma história que acompanha o crescimento da própria cidade.
ARTIGO HISTÓRICO • SAAE ITUVERAVA
Hoje, abrir uma torneira é um gesto simples. A água chega, silenciosamente, por uma rede que atravessa ruas, bairros e décadas de investimentos. O esgoto desaparece pelo ralo e segue por outra infraestrutura que também permanece quase inteiramente escondida sob nossos pés.
Mas houve um tempo em que nada disso existia.
Muito antes das estações de tratamento, dos reservatórios elevados e dos poços tubulares profundos, os moradores da antiga Ituverava precisavam encontrar outras formas de conseguir água e dar destino aos seus dejetos.
Reconstruir essa trajetória é também reconstruir uma parte da própria história da cidade.
Quando Ituverava ainda era Carmo da Franca
No final do século XIX, a paisagem urbana seria quase irreconhecível para quem conhece a Ituverava atual.
Um relato publicado em 1939, ao recordar o ano de 1893, descrevia o então Carmo da Franca com apenas seis ruas e duas praças. O pequeno núcleo urbano organizava-se principalmente ao redor de suas igrejas.
Nos documentos antigos aparecem com frequência os nomes Largo do Carmo e Largo do Rosário.
Naquele período, ‘largo’ designava um espaço público amplo e aberto, muitas vezes formado diante de uma igreja. Antes das praças ajardinadas e urbanizadas como conhecemos hoje, esses espaços serviam à circulação, às procissões, às festas e aos encontros da população.
No Largo do Carmo ficava a antiga igreja matriz dedicada a Nossa Senhora do Carmo. A área corresponde atualmente ao Tiro de Guerra 02-058.
E foi justamente nessa Ituverava ainda pequena que começou a longa história do abastecimento público de água.
A água corria a céu aberto
Antes dos encanamentos, parte da água utilizada pela população vinha da nascente do córrego Lava-Pés.
Em 1872, documentos descreviam um rego que conduzia essa água em direção à povoação. Tratava-se de um pequeno canal aberto no terreno, construído de maneira a aproveitar o próprio desnível natural: a gravidade fazia a água correr.
Há registros de dificuldades com esse sistema pelo menos desde 1862.
O rego atravessava propriedades e caminhos e precisava ser limpo periodicamente. Documentos daquele período relatam desvios de água, lançamento de sujeira e presença de animais próximos ao canal.
Era uma solução fundamental para a sobrevivência da povoação, mas bastante vulnerável. Parte da água destinada ao consumo percorria seu caminho completamente exposta ao ambiente.
O córrego Lava-Pés continua fazendo parte da geografia de Ituverava. Suas águas estão associadas à atual Represa Dr. Paulo Borges de Oliveira, embora essa represa não integre hoje o sistema de captação utilizado pelo SAAE para o abastecimento público.
Cisternas nos quintais e fossas para os dejetos
Nem toda família dependia exclusivamente do abastecimento coletivo.
Muitas residências possuíam cisternas, algumas utilizadas também pelos vizinhos. Há registro histórico de cisterna ainda em funcionamento depois da década de 1930.
As fontes conhecidas, entretanto, não informam com segurança a profundidade ou a técnica de construção dessas estruturas em Ituverava.
Se conseguir água já exigia soluções particulares, o destino dos dejetos era ainda mais rudimentar.
No século XIX, não havia rede pública de esgotamento sanitário. Cada propriedade precisava resolver o problema individualmente, inclusive por meio das chamadas fossas negras, escavações destinadas a receber os dejetos sem os sistemas de tratamento e proteção ambiental existentes atualmente.
Água e esgoto ainda pertenciam, em grande medida, ao espaço privado de cada residência.
1885: a água passa a ser assunto público
Em 20 de abril de 1885, a Lei Provincial nº 94 destinou ao Carmo da Franca 1:500$000 (um conto e quinhentos mil-réis) para a ‘canalisação d’água’, conservando-se aqui a grafia da época.
É um registro importante.
A água começava a deixar de ser apenas uma necessidade resolvida pelas famílias e passava a ocupar formalmente a agenda do poder público.
Saúde, crescimento urbano e abastecimento começavam a se encontrar.
1893: a cidade ganha seu primeiro abastecimento organizado
O grande marco seguinte ocorreu em 14 de julho de 1893.
Naquele dia foi inaugurado o primeiro serviço público de abastecimento de água de Ituverava de que temos documentação clara.
As fontes históricas mencionam encanamentos, uma caixa-d’água destinada à distribuição, instalações particulares e dois chafarizes públicos.
Um deles ficava no Largo do Carmo; o outro, no Largo do Rosário.
Para a população que não possuía instalação domiciliar, os chafarizes eram muito mais do que elementos ornamentais. Eram pontos onde a água necessária à vida cotidiana podia ser obtida.
Um dos antigos chafarizes permanece preservado na área do atual Tiro de Guerra, silencioso testemunho daquele primeiro momento da infraestrutura urbana.
Uma cidade que crescia mais rápido que seus mananciais
O abastecimento de 1893 não resolveria definitivamente o problema. À medida que Ituverava crescia, crescia também a demanda por água.
Em 1908, a Prefeitura adquiriu uma nascente situada na Fazenda Capivari da Mata e contratou uma nova canalização.
Poucos anos depois, em 1915, tornou-se necessária a captação de outro manancial. A existência dessa obra está documentada, embora a fonte histórica consultada não permita identificar com segurança qual era essa nova fonte de água.
Era um desafio que acompanharia praticamente toda a história urbana: a cidade se expandia, e o sistema precisava crescer junto com ela.
1938 e 1939: uma nova escala para o abastecimento
Uma transformação fundamental ocorreu no final da década de 1930.
Segundo registro histórico local, em 1938 foi construída a caixa-d’água elevada da Praça Dez de Março, estrutura que permanece no local até hoje.
Sua altura não era apenas uma característica arquitetônica. Um reservatório elevado permite utilizar a própria gravidade para auxiliar na pressão e na distribuição da água pela rede.
No ano seguinte, em 1939, entrou em funcionamento um novo sistema com captação de água no rio do Carmo.
A documentação histórica descreve, pela primeira vez de maneira detalhada em Ituverava, uma sequência organizada de tratamento.
A água passava inicialmente por insolação e decantação em um reservatório situado junto ao rio. Depois, era filtrada e submetida à purificação química.
Bombas com capacidade registrada de 66.600 litros por hora elevavam a água tratada até o reservatório da Praça Dez de Março.
O conjunto possuía três reservatórios, com aproximadamente 550 mil litros de capacidade total, enquanto a rede distribuidora já ultrapassava 16 quilômetros.
Ituverava havia deixado definitivamente para trás o tempo em que o abastecimento urbano dependia fundamentalmente de um rego a céu aberto.
Sob as ruas, chegava também o esgoto
A transformação não acontecia apenas no abastecimento.
Na década de 1940, Ituverava começava a estruturar também sua rede de esgotamento sanitário.
Em 1948, a legislação municipal tornou obrigatórias as ligações domiciliares à rede de esgoto.
No início de 1949, essas ligações já eram executadas enquanto muitas ruas ainda aguardavam o calçamento.
A ordem é reveladora da lógica urbana: antes de revestir definitivamente a superfície, era necessário instalar parte da infraestrutura que permaneceria escondida sob ela.
Em 12 de setembro de 1949, foi assentado o primeiro paralelepípedo do calçamento de Ituverava, na esquina da Rua Doutor Getúlio Vargas com a Praça Dez de Março.
A cidade começava a mudar tanto sobre quanto sob o chão.
1951: água e esgoto entram em uma nova etapa
Outra marca dessa história continua fisicamente preservada.
Em uma antiga caixa-d’água apoiada localizada na Rua Voluntários de Ituverava, 41, uma placa registra: ‘Foi concluída a rede de esgotos e ampliado o serviço de abastecimento de água de Ituverava – dezembro de 1951.’
Atualmente, o imóvel abriga o Departamento de Manutenção e Novas Ligações do SAAE e está interligado ao terreno da sede administrativa da autarquia, na Praça Dez de Março, 249.
A inscrição revela um momento decisivo: em 1951, não se estava começando o abastecimento, que já existia havia décadas, mas ampliando-o, ao mesmo tempo em que se concluía uma importante etapa da implantação da rede de esgotos.
A torre elevada da Praça, por sua vez, já existia desde 1938. O papel técnico exato da antiga caixa apoiada na ampliação de 1951 ainda depende de documentação complementar.
Da antiga estação à ETA moderna
Ituverava já realizava tratamento de água no sistema inaugurado em 1939.
Em 1969, foi construída uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA), junto ao rio do Carmo, inaugurando uma nova etapa tecnológica do abastecimento.
ETA é a instalação onde a chamada água bruta, retirada do manancial, passa por processos físicos e químicos para tornar-se adequada à distribuição.
Ao longo das décadas, novas estruturas, equipamentos, reservatórios e sistemas de controle foram incorporados.
E a cidade não ficou dependente apenas das águas superficiais.
A água que também vem do subsolo
O abastecimento moderno de Ituverava utiliza também poços tubulares profundos, popularmente conhecidos como poços artesianos.
Essas estruturas atravessam camadas geológicas até alcançar reservas subterrâneas de água.
Depois de captada, essa água também precisa ser submetida aos controles de qualidade e aos tratamentos exigidos antes de chegar à população.
Assim, o abastecimento que começou com um córrego e um rego aberto tornou-se um sistema que combina mananciais superficiais, águas subterrâneas, tratamento, bombeamento, reservação e quilômetros de redes.
Uma história que continua sob nossos pés
Grande parte da história do saneamento é invisível.
Está nas tubulações enterradas, nos antigos reservatórios, nas adutoras, nos coletores de esgoto e nas estruturas que se transformaram juntamente com a cidade.
Mas seus efeitos estão presentes diariamente.
Do córrego Lava-Pés ao rio do Carmo. Dos chafarizes às torneiras. Das cisternas aos reservatórios. Das fossas às redes de esgoto. Dos antigos sistemas de tratamento à ETA e aos poços tubulares profundos.
Conhecer essa trajetória é compreender que a história do saneamento também é a história de Ituverava: de sua saúde, de seu crescimento e da qualidade de vida construída por diferentes gerações.
